Sophia tinha quinze anos quando tiraram o primeiro braço. Cinco meses depois, o segundo. O tratamento todo foi pelo sistema público. O que o sistema não dá é o que vem agora.
Quem faz tudo por ela é a avó, Neusa, de sessenta e três anos. É ela quem dá a comida, assina o nome da neta, vira a menina na cama de noite. A mãe de Sophia se foi faz cinco anos, e o pai soube da operação e não apareceu. Faz cinco anos que são só as duas.
Pra Sophia voltar a fazer algo sozinha, existe uma operação que liga os nervos que sobraram ao músculo, pra uma prótese obedecer o que ela pensa. Sem isso, prótese nenhuma funciona: um ano depois, o nervo para de responder. Já se passaram nove meses.
Aí alguém desistiu de uma vaga, e sobrou uma data: dia vinte e dois. Se Sophia não ocupar, a próxima é em quatro meses quando não vai ter mais o que ligar.
Neusa voltou a passar roupa pra fora de madrugada, porque o dia inteiro é da neta. Vendeu as duas alianças, a dela e a do marido. Chegou no fim do que tinha.
Sophia diz que o sonho dela não é voltar a jogar vôlei, é abrir um pote de leite em pó pra avó, devolver as mãos que a Neusa emprestou esse tempo todo.
Os exames e a entrada precisam estar prontos antes do dia vinte e dois. É aí que essa história ainda pode mudar.
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